O artigo da coordenadora do Projeto Ar, Água e Terra, Denise Wolf, foi selecionado e publicado pela Rede Sul de Restauração Ecológica, um dos principais espaços de articulação sobre restauração ambiental no Sul do Brasil. O trabalho reúne experiências, percepções e resultados construídos ao longo da atuação com comunidades Guarani no Rio Grande do Sul, conectando prática de campo, conhecimento tradicional e soluções para a crise climática.
A publicação integra os debates do 1º Encontro Presencial da Rede Sul de Restauração Ecológica, realizado nos dias 17 e 18 de março, em Porto Alegre. O encontro reuniu pesquisadores, organizações da sociedade civil, viveiristas, agricultores, lideranças indígenas e diferentes atores da cadeia da restauração ecológica, com o objetivo de fortalecer a cooperação e discutir caminhos para a recuperação dos biomas Pampa e Mata Atlântica na região Sul.
Ao longo de dois dias, foram promovidos painéis, trocas de experiências e construção coletiva de estratégias, consolidando a atuação em rede como um elemento central para ampliar o impacto das iniciativas de restauração. É nesse contexto que o artigo se insere, contribuindo com a experiência do Projeto Ar, Água e Terra como um modelo que articula restauração ambiental, protagonismo indígena e fortalecimento dos territórios.
Leia o artigo na íntegra RELATO_REDE SUL_IECAM_PROJ AAT
Resumo do artigo, abaixo:
Autor(es): Denise Rosana Wolf & Beatriz Osorio Stumpf.
Categoria: experiências práticas (arquivo escrito)
Esse relato expressa, de forma livre, percepções, experiências e resultados alcançados na trajetória do projeto Ar, Água e Terra (https://projeto.iecam.org.br/o-projeto/), realizado pelo IECAM-Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (https://iecam.org.br/) e dez aldeias Guarani localizadas no Rio Grande do Sul (RS), em um território que abrange mais de 3.400 hectares nos biomas Mata Atlântica e Pampa, entre os anos 2010 e 2025.
O projeto foi assim chamado por compreender que os quatro elementos da natureza: ar, água, terra e fogo estão fundamentalmente relacionados com o modo de ser e viver guarani, porém, o elemento fogo (de essencial importância indígena) foi omitido na denominação por simbolizar o mistério e/ou segredo d princípios sagrados revelados. O projeto promove a troca/intercâmbio de saberes, sementes e mudas entre as aldeias; atividades como encontros, rodas,ilhas e oficinas de saberes e práticas indígenas e não indígenas; o viveirismo; a reconversão tradicionalmente produtiva e de segurança alimentar; o mapeamento e etnomapeamento; e a recuperação ambiental ou restauração florestal através do plantio de espécies vegetais nativas de uso tradicional, especialmente as mais ameaçadas; e a gestão sustentável dos territórios indígenas. A observação participante se apresenta como um instrumento de grande importância na construção deste processo, permitindo um aumento gradativo da aproximação com os indígenas, buscando a aprendizagem e a compreensão de seus hábitos, concepções e percepções. Esta é desenvolvida durante todo o tempo de convívio, nas rodas de conversa ao redor do fogo, na partilha de alimentos, nas visitas às casas, nas trilhas, nos encontros e oficinas e nos trabalhos diários.
As aldeias participantes do projeto estão localizadas em dez municípios do Rio Grande do Sul: Caraá, Maquiné, Osório, Palmares do Sul, Porto Alegre, Rio Grande, Riozinho, Santa Maria, Torres e Viamão, abrangendo as regiões centro-oeste, metropolitana e litoral sul, médio e norte do estado, nas regiões fisiográficas de depressão central, encostas da serra e litoral do estado. As aldeias participantes são as Teko’a Yvyty Porã (Aldeia Serra Bonita), Caraá, Maquiné e Riozinho; Ka’aguy Pau (Aldeia Vale das Matas), Caraá e Maquiné; Kuaray Resé (Aldeia Sol Nascente), Osório; Nhuu Porã (Aldeia Campo Bonito), Torres; Yriapu (Aldeia Som do Mar), Palmares do Sul; Anhetengua (Aldeia da Verdade, Verdadeira), Porto Alegre; Pará Rokê (Aldeia Porta[l] do Mar), Rio Grande; Guaviraty Porã (Aldeia da Guabiroba Boa), Santa Maria; Pindó Mirim (Aldeia dos Coqueirinhos, Palmeirinhas), Viamão; e Nheengatu (Aldeia das Boas Palavras, Falas), Viamão.
O trabalho dos viveiristas guaranis iniciou, de fato, no viveiro da aldeia de Porto Alegre, em 2007, após um karaí (pajé, sábio, ancião) abençoar o local. Na primeira fase do projeto três agentes ou cuidadoresindígenas se dedicaram e se apropriaram desse viveiro chamado por eles de casa dos remédios (Poarenda) ou das plantas (Yvyrenda). Na segunda fase do projeto, em 2012 o viveiro foi reformado e em 2015 ampliado.
Os viveiros nas Teko’a Anhetengua e Yriapu permitem a produção de mudas a partir de sementes coletadas em matrizes nas próprias aldeias, por meio do intercâmbio de sementes e mudas entre as áreas indígenas, da aquisição de sementes e do plantio das mudas nas aldeias, possibilitando a segurança ou enriquecimento alimentar, a reintrodução e diversidade de espécies utilizadas também na saúde e medicina, na confecção das peças artesanais, utensílios e instrumentos musicais, em pinturas corporais e rituais espirituais, e na construção de casas de reza e moradias.
Após o período de coleta, aquisição, distribuição e/ou troca de sementes, mudas e ramas e do plantio em roças e SAF, partimos para a gestão e recuperação de áreas degradadas. Na teko’a Yriapu, em Palmares do Sul, e na teko’a Nhuu Porã, em Torres, por exemplo, espécies de frutíferas e palmeiras nativas, especialmente, vêm substituindo espécies exóticas e invasoras como eucalipto e pinus. A recuperação ecológica das paisagens e a restauração florestal é realizada através do consórcio e/de várias técnicas como poleiros, nucleações, adubação verde, redes/“chuvas” de sementes, e do plantio em mosaicos e entrelinhas, especialmente, de espécies mais ameaçadas de extinção e de importância tradicional guarani.
Respeitando as especificidades, ambientes e demandas de cada aldeia envolvida, a atividade de viveirismo já possibilitou o cultivo de mais de 30 mil mudas nos dois viveiros/estufas e o engajamento entre indígenas e colaboradores, o plantio de mais 60 mil mudas de 100 espécies da flora, principalmente, nativa da região sul do Brasil.
Alcançamos, atualmente, mais de 30 hectares de áreas recuperadas ou em recuperação e mais de 26 hectares de áreas de/em reconversão produtiva (kokué/SAF) em dez aldeias Guarani do Rio Grande do Sul, citadas no início do relato. Cabe ressaltar que o território total das dez aldeias atinge 3.409 hectares e apresenta 3.281 hectares conservados, ou seja, mais de 96%, em média, do território indígena já mapeado.



