Quem pesquisa “o que é sociobiodiversidade” geralmente encontrou o termo em um relatório ambiental, uma reportagem ou um projeto de conservação e procura uma explicação que faça sentido fora do meio acadêmico.
Em poucas palavras, sociobiodiversidade é a relação entre a diversidade biológica de um lugar e os modos de vida que ajudam a preservá-la. Na prática, significa reconhecer que uma floresta, um rio ou um campo permanecem ricos em espécies porque existem pessoas que conhecem, manejam e cuidam desses ambientes há gerações.
Sociobiodiversidade é a integração entre diversidade biológica e diversidade sociocultural, incluindo:
- conhecimentos;
- práticas;
- sistemas produtivos;
- formas de organização;
- patrimônio genético;
- patrimônio cultural.
Definição sem jargão
O termo reúne dois conceitos. Biodiversidade é a variedade de formas de vida (plantas, animais, fungos, microrganismos, seus genes e os ecossistemas que compõem). Sociodiversidade diz respeito à diversidade de povos, línguas, culturas, saberes e formas de organização social.
Da união desses dois elementos surge uma constatação simples: muitas das áreas mais preservadas do planeta coexistem com povos indígenas e comunidades tradicionais. Em muitos casos, ela permanece em equilíbrio porque há quem saiba quais espécies plantar, quando colher, o que pode ser retirado e o que deve permanecer intocado. Quando esses modos de vida são interrompidos ou enfraquecidos, a biodiversidade também tende a perder diversidade, resiliência e capacidade de regeneração.
De onde veio
O conceito ganhou força a partir das discussões internacionais sobre biodiversidade e desenvolvimento sustentável e foi incorporado às políticas públicas brasileiras ao reconhecer que a conservação da natureza depende também da valorização dos povos indígenas e comunidades tradicionais, que dependem diretamente desses ambientes e, ao mesmo tempo, contribuem para sua conservação.
O Brasil está entre os países megadiversos e abriga 391 etnias, povos ou grupos indígenas, além de centenas de comunidades tradicionais distribuídas por todos os biomas. Essa riqueza ambiental e cultural não é uma coincidência. Em 2007, o governo federal reconheceu oficialmente essa relação ao instituir, por meio do Decreto nº 6.040, a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. A legislação apenas formalizou uma realidade que já existia.
No território Guarani
No Rio Grande do Sul, a sociobiodiversidade deixa de ser conceito e se transforma em prática. No Projeto Ar, Água e Terra, coordenado pelo IECAM, a sociobiodiversidade pode ser observada no cotidiano das aldeias a partir das atividades das equipes indígena e não indígena (técnica). Uma das iniciativas é o viveirismo. Aldeias Guarani produzem mudas de espécies nativas em viveiros próprios para plantar e recuperar áreas degradadas.
Outra iniciativa é o intercâmbio de sementes. Comunidades compartilham variedades tradicionais de milho, feijão e outras culturas entre diferentes aldeias, preservando linhagens que dificilmente circulam no mercado convencional.
O etnomapeamento também faz parte desse processo. As próprias aldeias registram suas áreas de mata, roças e locais de importância cultural, integrando conhecimento tradicional, observação do território e ferramentas de cartografia.
Há ainda a reconversão produtiva, A reconversão produtiva substitui modelos de uso da terra por sistemas que conciliam produção de alimentos, recuperação da vegetação nativa e conservação dos recursos naturais.
O que se perde quando essa relação se rompe
Quando um território tradicional é invadido, ou quando uma comunidade perde o acesso à terra por deslocamentos forçados ou pressões econômicas, o impacto vai além das pessoas. O conhecimento sobre quando plantar, quais áreas preservar e como utilizar os recursos naturais também se perde.
Por isso, a perda não é apenas cultural nem apenas ambiental. As duas acontecem ao mesmo tempo. Proteger territórios tradicionais significa, na prática, proteger também a biodiversidade. Políticas que tratam uma questão sem considerar a outra dificilmente produzem resultados duradouros.
Para saber mais
Este texto é parte de uma série que o IECAM está publicando sobre os conceitos por trás do Projeto Ar, Água e Terra, desenvolvido com dez aldeias Guarani no Rio Grande do Sul e patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Quem quiser entender o que é uma teko’a, a aldeia Guarani, pode conferir o primeiro artigo da série. Os próximos vão tratar de etnomapeamento, viveirismo e reconversão produtiva com mais detalhe. Acompanhe pelo blog e pelas redes sociais do projeto.


