Projeto Ar, Água e Terra leva experiência de restauração com aldeias Guarani ao Observatório Indigenista

Programa debateu como recuperação ambiental, segurança alimentar e fortalecimento cultural caminham juntos na construção do Bem Viver Guarani

“Não é simplesmente plantar uma árvore. Quando a gente recupera um território, está trazendo de volta o ar, a água e a vida.” A afirmação do cacique Valdecir Xunu Moreira, da Teko’a (aldeia) Pindó Mirim, em Viamão, sintetiza uma das mensagens centrais da conversa promovida pelo Observatório Indigenista em 10 de junho. Ao lado da bióloga Denise Wolf, coordenadora do Projeto Ar, Água e Terra e presidente do Instituto de Estudos Culturais e Ambientais (Iecam), o líder indígena participou de uma transmissão ao vivo sobre Bem Viver Guarani, recuperação ambiental e fortalecimento dos territórios indígenas no Rio Grande do Sul (RS).

A transmissão teve como tema o fortalecimento das condições do Bem Viver Mbyá-Guarani e reuniu representantes do Observatório Indigenista e do Projeto Ar, Água e Terra para discutir experiências desenvolvidas ao longo de mais de uma década junto a aldeias indígenas. Entre os assuntos abordados estiveram a recuperação de áreas degradadas, a gestão territorial, a segurança alimentar, a conservação da biodiversidade e o papel dos povos originários na proteção dos biomas brasileiros.

Durante a conversa, Denise Wolf apresentou a trajetória do Projeto, desenvolvido em quatro fases desde 2010, em parceria com comunidades Guarani no RS. Atualmente, a iniciativa envolve diretamente 11 teko’a e reúne ações centradas na gestão territorial.

Segundo Denise, a proposta do Projeto sempre esteve ligada à construção de condições para que as comunidades possam viver conforme seus modos próprios de organização, conhecimento e relação com o território. “O foco central é a gestão sustentável dos territórios indígenas. Isso envolve as kokué (roças tradicionais Guarani), viveirismo, recuperação ambiental, mapeamento participativo, rodas de conversa, trilhas, oficinas, intercâmbios de sementes, mudas e saberes, quiosques para venda do artesanato, fontes renováveis de energia e uma série de ações construídas com as comunidades”, explicou a bióloga.

Denise também ressaltou que a restauração ecológica precisa estar conectada às necessidades concretas das aldeias, especialmente à produção de alimentos e à autonomia dos territórios. “Antes de pensar em restauração, é preciso garantir as roças tradicionais, as sementes, as agroflorestas e a segurança alimentar. Tudo está conectado”, afirmou ela.

Ao compartilhar a experiência da Teko’a Pindó Mirim, Valdecir Xunu Moreira destacou as transformações observadas no território ao longo dos últimos anos. Segundo ele, áreas antes degradadas e marcadas pela presença de eucaliptos passaram por um processo de recuperação ambiental que devolveu diversidade e vida ao espaço. “Está tudo se transformando como o sonho do meu avô, que era reflorestar todo esse espaço com árvores nativas, frutíferas e medicinais. […] É um legado que continua produzindo vida”, relatou Xunu, emocionado.

Para o cacique, os resultados alcançados demonstram a importância de iniciativas de longo prazo, capazes de gerar benefícios que atravessam gerações e fortalecem a permanência das comunidades em seus territórios. “É um trabalho que fazemos pensando nos nossos filhos, netos e em toda a sociedade”, afirmou, ao relacionar a recuperação ambiental à proteção da vida.

Ao longo da conversa, os participantes também refletiram sobre o papel dos povos indígenas diante da crise climática. Para Denise Wolf, as comunidades tradicionais desempenham uma função estratégica na proteção dos ecossistemas, embora sua contribuição para a conservação da biodiversidade ainda seja pouco reconhecida. “A sociedade precisa entender que os povos originários são aliados fundamentais na proteção da natureza e dos elementos vitais que garantem a nossa existência. Estamos falando da qualidade do ar, da água e da vida”, ressaltou a bióloga.

A íntegra da transmissão está disponível no canal do Observatório Indigenista no YouTube, no link https://www.youtube.com/watch?v=31BLWNM6Wis